Autor : Yasmin Gonzales


O Ártico voltou a despertar os interesses das grandes potências e pode se tornar palco de uma nova corrida armamentista. Países têm utilizado a região para demonstrar seu poderio bélico, alimentando, mais uma vez, o dilema de segurança no cenário internacional. 

Com os efeitos do aquecimento global cada vez mais intensos, as áreas glaciais são as primeiras a sofrer as consequências, seja pela perda de território congelado, seja pelo aumento do nível do mar, que afeta principalmente os países insulares. No entanto, o que se configura como um evento crítico para o ecossistema polar transforma-se também em uma oportunidade estratégica de exploração dos ricos recursos naturais e político-econômicos da região. 

Rico em petróleo, minerais e gás natural, o Ártico tornou-se centro de disputas internacionais, ao mesmo tempo em que proporciona novas rotas marítimas com alto valor estratégico para o comércio global. Essa perspectiva é um dos pilares da Estratégia 2035 da Rússia, que visa, entre outros objetivos, garantir a hegemonia sobre a Rota do Mar do Norte (Northern Sea Route – NSR), ligação crucial entre Ásia e Europa por meio de uma rota mais curta e econômica. A Rússia impõe exigências específicas a navios estrangeiros que desejam cruzar a NSR, reforçando seu controle sobre a região. Soma-se a isso a reativação de antigas bases soviéticas, investimentos em sistemas de defesa com mísseis e a maior frota de navios quebra-gelo do mundo — 51 embarcações, das quais cinco são nucleares. 

Naturalmente, essa intensificação da presença russa no polo norte acendeu o alerta dos Estados Unidos e da OTAN, que passaram a reforçar sua atuação na área. Em 2024, o Departamento de Defesa dos EUA lançou uma nova Estratégia Nacional para a Região do Ártico, estabelecendo diretrizes para investimentos, engajamentos e exercícios militares. A OTAN, por sua vez, busca fortalecer a cooperação entre os países-membros da região, como a Noruega. 

Outro ponto de destaque na estratégia estadunidense é o alerta quanto à crescente presença de uma potência não ártica: a República Popular da China. O novo documento classifica o país asiático como um risco relevante, destacando que se trata do “único concorrente estratégico com vontade — e, cada vez mais, com os meios — para refazer a ordem internacional”. O aprofundamento das relações entre Rússia e China também preocupa os EUA. Em um sinal claro dessa aproximação, ambos realizaram recentemente um exercício naval conjunto na região, reforçando sua cooperação em matéria de segurança.

Diante desse cenário, as dinâmicas internacionais voltam-se à demonstração de poder e ao avanço de estratégias nacionais de controle. O futuro do Ártico dependerá dos próximos passos das grandes potências, mas uma coisa é certa: a região nunca mais será a mesma.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FONTES: PEREIRA, A. D.; OLIVEIRA, E. C. DE; MARTINS, J. C. L.; DE SOUZA CAMPOS, R. A Geopolítica do Ártico: plataforma de projeção dos interesses russos no cenário geopolítico mundial. Coleção Meira Mattos: revista das ciências militares, v. 18, n. 62, p. 335-348, 30 ago. 2024.

https://www.opeu.org.br/2024/07/27/eua-lanca-nova-versao-da-estrategia-nacional-para-o-artico/