A inteligência artificial deixou de ser apenas um tema da ficção científica e é uma das tecnologias mais transformadoras da atualidade, por esse motivo, é preciso considerar as implicações da difusão dessa tecnologia em âmbito mundial.
Esse avanço tecnológico pode ter efeitos em diversas áreas por apresentar uma vasta possibilidade de aplicação e envolve questões éticas e sociais. Além disso, há competitividade internacional envolvida no desenvolvimento, uma vez que potências como Estados Unidos e China investem amplamente em pesquisa,desenvolvimento e controle de dados relacionadas à IA.
Segundo um relatório da ONU, escrito pelo Órgão Consultivo de Alto Nível sobre Inteligência Artificial em 2024, a necessidade de governança global é “irrefutável”. Assim, é fundamental refletir sobre a urgência de estabelecer limites e mecanismos internacionais de regulamentação que garantam o uso seguro, equitativo e responsável dessa tecnologia, com consideração acerca dos dilemas entre a soberania estatal e a harmonização regulatória.
Aspectos culturais/sociais.
A corrida internacional pelo domínio da Inteligência Artificial (IA) tem intensificado desigualdades já consolidadas no cenário global. Favorecendo as nações mais desenvolvidas e marginalizando aquelas com menor capacidade de inovação. Diante disso, torna-se essencial reconhecer o papel estratégico das iniciativas regulatórias locais e regionais, que funcionam como barreiras de proteção aos direitos humanos frente a um panorama global volátil e assimétrico.
A governança da IA exige um equilíbrio delicado entre medidas nacionais de hard law e o fortalecimento de soft law internacional, pautadas por uma lógica afirmativa de direitos humanos e justiça social. Sem esse alinhamento, abre-se caminho para o que tem sido chamado de “onda tecnológica opressiva”, onde algoritmos reforçam preconceitos e decisões automatizadas substituem o diálogo democrático.
Sendo assim, o G20 assume um papel central. A criação de um programa global de desenvolvimento de capacidades voltado ao Sul Global é urgente. Trata-se de garantir que países historicamente desfavorecidos possam avaliar riscos, construir seus próprios ecossistemas tecnológicos e moldar o futuro digital com base em suas realidades culturais e sociais.
O Relatório de Riscos Globais de 2024, lançado no Fórum Econômico Mundial, alerta que a IA figura entre os riscos mais severos da próxima década. A concentração da produção tecnológica exclui mercados que apenas consomem, mas não desenvolvem tecnologia. Isso torna ainda mais crítica a necessidade de regulação transparente, interoperável e inclusiva.
A Declaração de Líderes do G20 reconhece que a introdução bem-sucedida da IA nos espaços sociais e de trabalho depende da escuta ativa da sociedade. O diálogo social é um instrumento necessário para garantir que a implementação tecnológica respeite os princípios fundamentais e não fragilize direitos conquistados.Temas como emprego, saúde, educação e meio ambiente estão diretamente afetados por essas transformações e exigem participação cidadã nos processos decisórios.
Em síntese, o fortalecimento da cooperação internacional, aliado à permanência de instâncias como o G20 Social e o L20, é essencial para garantir que a inteligência artificial seja uma ferramenta de inclusão e não de exclusão, uma força democratizadora do século XXI, e não um novo vetor de desigualdade global.
Aspectos econômicos
A Inteligência Artificial (IA) se tornou uma das maiores revoluções tecnológicas das últimas décadas, especialmente com o avanço das IAs generativas, consolidando-se como um dos marcos centrais da Indústria 4.0. Esse avanço impulsionou uma verdadeira corrida pela liderança em IA, liderada principalmente por China e Estados Unidos, que buscam dominar o desenvolvimento e a aplicação econômica dessa tecnologia.
A IA está sendo amplamente adotada em setores como a indústria cinematográfica, de serviços e logística, tornando-se símbolo da automação nos mercados de trabalho. Essa inovação promete ganhos expressivos de produtividade, redução de custos e transformação dos modelos de negócios, estimulando ainda mais o investimento em pesquisa e inovação tecnológica.
Entretanto, essa rápida adoção também expôs uma lacuna significativa na legislação e na governança internacional. A ausência de regulamentação clara sobre o uso da IA traz riscos econômicos e sociais relevantes, como o aumento das desigualdades, o desemprego tecnológico e a concentração de poder em grandes corporações. Sem normas globais que garantam transparência, equidade e ética no uso da IA, os impactos negativos podem superar os benefícios esperados.
Assim, torna-se urgente a criação de mecanismos de governança global que tratem a IA não apenas como uma inovação tecnológica, mas como uma força econômica transformadora, que exige cooperação internacional, justiça distributiva e responsabilidade social.
Aspectos políticos
Politicamente, a ausência de normas internacionais claras sobre a IA agrava riscos significativos. O uso de sistemas algorítmicos para fins militares, de vigilância em massa ou manipulação de informação abre espaço para abusos de poder, ameaçando princípios democráticos e direitos fundamentais. Por exemplo, a implementação de sistemas de reconhecimento facial sem supervisão regulatória robusta pode gerar violações em massa da privacidade e ser instrumentalizada para perseguições políticas. Além disso, o uso de algoritmos para influenciar processos eleitorais — seja por meio de segmentação de propaganda política, seja por manipulação de opinião pública via desinformação — coloca em risco a integridade dos sistemas democráticos. Essas aplicações da IA, sem mecanismos de accountability, fortalecem a possibilidade de regimes autoritários ampliarem seu controle sobre a sociedade, e ao mesmo tempo criam vulnerabilidades para democracias, que podem ver seus processos políticos contaminados pela interferência automatizada.
Outro aspecto político central é a concentração do domínio da IA em poucas potências globais, o que reforça assimetrias históricas no sistema internacional. Países do Sul Global, em sua maioria, não possuem infraestrutura, capacidade de pesquisa ou capital humano suficientes para competir em pé de igualdade, o que os torna dependentes de tecnologias importadas e vulneráveis a pressões políticas e econômicas externas. Essa dependência compromete sua autonomia decisória e sua soberania, pois as soluções tecnológicas passam a refletir valores, interesses e prioridades de quem as desenvolve, não necessariamente às necessidades locais. Além disso, grandes corporações transnacionais do setor de tecnologia, muitas vezes ligadas a governos centrais, acabam funcionando como atores quase soberanos, com capacidade de influenciar políticas públicas, definir padrões técnicos globais e até condicionar investimentos estratégicos. Essa configuração amplia um novo tipo de colonialismo digital, onde o poder de quem controla a IA se estende para além das fronteiras estatais tradicionais.
Referências bibliográficas
UN. Painel da ONU apresenta propostas para regulação global da Inteligência Artificial. 19 set. 2024. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2024/09/1837771. Acesso em: 29 jun. 2025. https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/23846
Governança da inteligência artificial (IA): a interação entre o local, o regional e o global em direção a um a solidariedade transnacional. Revista Politics. Disponível em : https://politics.org.br/pt-br/outros-assuntos-news/governanca-da-inteligencia-artificial-ia-inter acao-entre-o-local-o-regional-e. Acesso em: 30 jun. 2025.
GUILHERME MUCELIN. Consultor Jurídico – Riscos Culturais da IA Generativa. Disponível em:https://www.conjur.com.br/2024-fev-05/quais-sao-os-riscos-culturais-da-ia-generativa/. Acesso em: 30 jun. 2025.
O papel da participação social na inclusão da Inteligência Artificial na Declaração de Líderes do G20. Disponível em:https://www.gov.br/g20/pt-br/noticias/o-papel-da-participacao-social-na-inclusao-da-inteligen cia-artificial-na-declaracao-de-lideres-do-g20. Acesso em: 30 jun. 2025.
CNN BRASIL. Uso de inteligência artificial aumenta e alcança 72% das empresas, diz pesquisa. Disponível em:https://www.cnnbrasil.com.br/economia/negocios/uso-de-inteligencia-artificial-aumenta-e-alc anca-72-das-empresas-diz-pesquisa/.
ÁRTICA CAPITAL. A ascensão da inteligência artificial na economia moderna. Clair – Publicações. Disponível em:https://artica.capital/publicacoes-clair/a-ascensao-da-inteligencia-artificial-na-economia-mod erna/.
JORNAL DA UNICAMP. IA desencadeia cenário imprevisível na economia. Edição 723. Disponível em:https://jornal.unicamp.br/edicao/723/ia-desencadeia-cenario-imprevisivel-na-economia/.
UNESCO. Recommendation on the Ethics of Artificial Intelligence. Paris: UNESCO, 2021. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000380455. Acesso em: 06 jul. 2025.
BRUNDAGE, Miles et al. The Malicious Use of Artificial Intelligence: Forecasting, Prevention, and Mitigation. Future of Humanity Institute, University of Oxford, 2018. Disponível em: https://arxiv.org/abs/1802.07228. Acesso em: 06 jul. 2025.
CAVE, Stephen; ÓHÉIGEARTAIGH, Seán S. An AI Race for Strategic Advantage: Rhetoric and Risks. In: Proceedings of theAAAI/ACM Conference on AI, Ethics, and Society, 2018. p. 36–40. DOI: 10.1145/3278721.3278780.