Autor(a): Taissa Raimundo Segura
A vitória de Donald Trump nas eleições norte-americanas em 2024 e a vitória do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) nas eleições estaduais do leste alemão em setembro de 2026 ilustram um cenário recorrente na política mundial. Essa ascensão da extrema direita nos últimos anos reflete uma crise profunda de legitimidade das instituições democráticas liberais, além de marcar o impacto de frustrações socioeconômicas acumuladas. À medida que esse fenômeno foi se tornando mais perceptível, autoridades governamentais e representantes de grandes instituições têm se manifestado sobre esse movimento. Referente a isso, António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) alertou durante a 58ª sessão do Conselho de Direitos Humanos que os direitos humanos “estão sendo asfixiados um após o outro”.
O crescimento de partidos de extrema direita em disputas eleitorais ao longo dessa década vêm alarmando movimentos sociais, pois representam uma ameaça aos avanços progressistas conquistados com muito esmero nos últimos anos. Respaldados em comportamentos anti-aborto, anti-imigração, anti-LGBTQIAPN+ dentre outras ideias de caráter conservador, os partidos de extrema direita têm conquistado mais simpatizantes por todo o mundo. Nesse sentido, Alberto do Amaral, professor de Direito Internacional da Faculdade de Direito da USP, afirma que esse fenômeno representa não apenas uma ameaça aos direitos humanos, mas também ao direito democrático.
Situações como a invasão do Capitólio nos Estados Unidos, ocorrido em 6 de janeiro de 2021, e a invasão do Congresso Nacional em Brasília, episódio que aconteceu em 8 de janeiro de 2023, evidenciam o caráter agressivo e massivo que a extrema direita pode ter em atacar as bases estruturais do poder democrático. E no caso de regimes totalitários vivenciados pela Alemanha e Itália, respectivos berços do nazismo e do facismo, partidos de extrema direita atuais, que incentivam atos de violência, fazem também o resgate de antigos ideais segregacionistas desses regimes.
De acordo com Amâncio Jorge Silva, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, o surgimento e a ascensão dos partidos de extrema-direita se dão, fundamentalmente, pela crise do sistema democrático, insatisfação com relação à sociedade e mau cumprimento de políticas públicas. Para o professor, “a ascensão dos partidos de direita tem sido responsiva ou derivada principalmente de uma insatisfação com relação à sociedade reagindo ao que entende ser os efeitos da globalização, ou seja, o não atendimento a políticas públicas, políticas de bem-estar (…) começam a surgir esses partidos anti-globalização, anti-imigração, anti-estrangeiros, anti-integração regional, como acontece na Europa. Então, o significado desses partidos são crises de fato da democracia, do ponto de vista de representação, mas também de qualidade de vida.”
O processo de globalização acabou por permitir que os países pudessem interagir de maneira mais simplificada, diminuindo barreiras econômicas e migratórias. A partir dessa nova realidade, que é marcada pelo intenso fluxo de pessoas, os movimentos e ideias protecionistas foram incentivados, característica fundamental dos partidos de extrema direita, que além disso, também cultivam ideias racistas e eslamofóbicas. A recente deportação em massa de imigrantes dos Estados Unidos, comandada por Trump, é um exemplo que comprova como a política anti-imigração e a negação aos efeitos da globalização levaram ao fortalecimento da ultradireita.
Diante das informações expostas, é possível observar que a ascensão da extrema direita transforma a política externa ao priorizar o nacionalismo estreito, rejeitar o multilateralismo e ao gerar choques em acordos internacionais. Segundo essa perspectiva, ao contrário da diplomacia liberal clássica, esses governos transformam a política externa em um campo de batalha das guerras culturais, empregando-a para fortalecer seu apoio domiciliar, conforme desafia a ordem internacional estabelecida. Em síntese, ao exportarem suas pautas internas para o cenário internacional, os regimes de extrema direita reforçam o enfraquecimento das instituições multilaterais e da cooperação global, além de promover a ruína democrática em um contexto internacional.
REFERÊNCIAS
TEIXEIRA, Yasmin. Ascensão da extrema direita no mundo reflete crise da democracia. Jornal da USP, São Paulo, 13 mar. 2025. Disponível em: https://jornal.usp.br/radio-usp/ascensao-da-extrema-direita-no-mundo-reflete-crise-da-democracia/. Acesso em: 6 set. 2026.
OLIVEIRA, Leandro Gilson de. Conexões entre a política externa e a política interna em administrações de extrema direita. Aurum Revista Multidisciplinar, v. 2, n. 1, p. 1-9, 2026. DOI: https://doi.org/10.63330/armv2n1-004. Disponível em: https://aurumpublicacoes.com/index.php/MA/article/view/992. Acesso em: 6 set. 2026.
G1. Extrema direita, AfD, conquista vitória histórica em eleição regional alemã. G1, Rio de Janeiro, 6 set. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/09/06/extrema-direita-afd-conquista-vitoria-historica-em-eleicao-regional-alema.ghtml. Acesso em: 6 set. 2026.
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