Autor(a): Miguel Tavares
O rápido processo de urbanização no Brasil trouxe consigo o desafio do desenvolvimento sem apagar as pegadas do passado. À medida que os centros urbanos se expandem e se renovam, o patrimônio cultural frequentemente se vê ameaçado pela especulação imobiliária e pela falta de planejamento adequado. No entanto, a preservação vai muito além de manter “pedra e cal” de pé; trata-se de salvaguardar a memória histórica e, consequentemente, a identidade de um povo.
Nas grandes metrópoles brasileiras, o choque entre o novo e o antigo é evidente. Projetos de revitalização de áreas centrais, como a zona portuária do Rio de Janeiro ou o Centro Histórico de Salvador, frequentemente esbarram no fenômeno da gentrificação. Embora tragam melhorias estruturais, essas transformações urbanas correm o risco de afastar as comunidades tradicionais que deram vida àqueles espaços. A memória histórica de bairros populares, muitas vezes ligada à herança afro-brasileira e operária, acaba sendo substituída por grandes empreendimentos comerciais que padronizam a paisagem e silenciam o passado local.
O patrimônio cultural não é neutro; ele é intrinsecamente político. No Brasil atual, a disputa sobre o que deve ser lembrado e o que pode ser esquecido tem ocupado o centro do debate público. Um exemplo marcante da relevância política do patrimônio ocorreu em Brasília. A capital federal, reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade por sua arquitetura modernista que simboliza o Estado Democrático de Direito, tornou-se centro de debates sobre a preservação e a segurança da memória nacional após os episódios de destruição de suas sedes institucionais. A depredação de edifícios, obras de arte e mobiliário não foi apenas um ato de vandalismo, mas um ataque direto à memória democrática e à coesão da nação.
Outro exemplo prático dessa intersecção entre memória e política é a atual discussão em torno de monumentos que homenageiam figuras históricas ligadas à escravidão ou à colonização predatória. Movimentos sociais têm tensionado o espaço urbano para que a história seja recontada sob a perspectiva das populações marginalizadas. Assim, a decisão do Estado sobre quais estátuas devem permanecer em praça pública, quais devem ser levadas a museus e quais narrativas (como a de antigos quilombos urbanos e aldeias indígenas) devem ser tombadas, converte a política de preservação urbana num verdadeiro campo de disputa ideológica e por representatividade.
Para mediar essas tensões, a atuação de órgãos de preservação como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) torna-se crucial. A Constituição Federal de 1988 ampliou o conceito de patrimônio, reconhecendo a importância não apenas dos grandes monumentos europeizados, mas também dos bens materiais e imateriais portadores de referência à identidade dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. Contudo, as políticas públicas no Brasil ainda enfrentam entraves como o subfinanciamento e a forte pressão do setor imobiliário e do descaso administrativo.
Nesse contexto, o direito à memória consolida-se como um direito fundamental. Um país que não preserva seu passado corre o risco de viver uma amnésia social, incapaz de compreender suas próprias raízes e desigualdades estruturais. A urbanização não precisa ser inimiga da memória; com políticas de preservação inclusivas, diálogo com a sociedade civil e forte educação patrimonial, é possível construir cidades inteligentes que abracem o futuro sem demolir as fundações de sua própria história.
Referências
BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.
CHUVA, Márcia. A relevância do Patrimônio Cultural e da Memória. Portal Gov.br, Brasília, DF, 18 out. 2020. Disponível em: <https://www.gov.br/cnpq/pt-br/assuntos/noticias/cnpq-em-acao/a-relevancia-do-patrimonio-cultural-e-da-memoria>. Acesso em: 13 out. 2026.
FONSECA, Maria Cecília Londres. O patrimônio em processo: trajetória da política federal de preservação no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ; Iphan, 2005.
SUNDSTRÖM, Admeire da Silva Santos. Políticas públicas de preservação do patrimônio cultural no Brasil e o papel social do bibliotecário. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, São Paulo, v. 15, n. 2, p. 106-132, maio 2019. Disponível em: <https://rbbd.febab.org.br/rbbd/article/view/1155>. Acesso em: 13 out. 2026.
0 comentário