Autor: Gisele Ribeiro

A confirmação da Arábia Saudita como sede da Copa do Mundo de 2034 reacendeu o debate sobre o uso de megaeventos esportivos como instrumento político e diplomático, levantando críticas de organizações de direitos humanos e especialistas em relações internacionais


Nos últimos tempos, megaeventos esportivos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas têm atraído atenção não só pelo seu objetivo esportivo, mas também pela forte disputa política, econômica e pelas estratégias diplomáticas que são articuladas de maneira intensa entre os líderes mundiais. Porém, essas transformações não surgiram de maneira recente. Desde meados do século XX, governos autoritários tendem a usar esses eventos mundiais para promover o poder, reforçar a identidade nacional e melhorar a imagem do país perante a opinião pública.

Segundo o analista de Relações Internacionais, Guilherme Bueno, com a intensificação da globalização e da mídia digital no século XXI, conceitos como diplomacia esportiva, soft power esportivo e, de maneira mais crítica, sportswashing, em que os Estados autoritários utilizam desses megaeventos esportivos para melhorar sua imagem perante o internacional. Um exemplo disso são os Jogos Olímpicos de 1936, que ocorreram na Alemanha Nazista, cujo objetivo de Hitler era projetar a imagem de superioridade e progresso do regime nazista.

Especialistas alertam que a popularidade e o apelo emocional do esporte criam um ambiente favorável para que governos construam narrativas de modernidade, estabilidade e progresso. “Ao sediar esses eventos, regimes autoritários buscam não apenas ganhos econômicos, mas principalmente simbólicos e diplomáticos. É uma forma de legitimar-se perante a comunidade internacional”, explica a cientista política Ana Rodrigues, pesquisadora de pós-doutorado no Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (NUPRI-USP).

Organizações de direitos humanos defendem mudanças nos critérios de escolha das sedes, exigindo garantias de respeito a liberdades civis e direitos trabalhistas. No entanto, com a confirmação da Arábia Saudita como sede da Copa do Mundo de 2034, críticos temem que o esporte continue sendo instrumentalizado para fins políticos, mantendo vivo o debate sobre os limites entre celebração esportiva e legitimidade autoritária.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

RELAÇÕES EXTERIORES. Geopolítica do futebol: o esporte como instrumento de poder e de legitimação internacional. Disponível em: https://relacoesexteriores.com.br/geopolitica-do-futebol-o-esporte-como-instrumento-de-poder-e-de-legitimacao-internacional/. Acesso em: 16 set. 2025.

UOL. Copa do Mundo no Catar escancara contradições de sediar megaeventos em ditaduras. 18 nov. 2022. Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2022/11/18/copa-do-mundo-no-catar-escancara-contradicoes-de-sediar-megaeventos-em-ditaduras.htm. Acesso em: 16 set. 2025.

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