Autor: Liz Harakawa

Com a recente comprovação da eficácia da vacina contra o Ebola — a rVSV-ZEBOV
(Ervebo) — e a significativa redução dos casos de malária ao redor do globo, os debates acerca da
prevenção de doenças virais e de sua possível erradicação por meio de avanços científicos têm
ganhado força, especialmente no âmbito da Organização Mundial da Saúde (OMS), que atua na
coordenação de esforços internacionais voltados à saúde pública.

Entretanto, apesar desse progresso, observa-se um contraste marcante quando se
consideram as desigualdades sociais que limitam o alcance desses avanços. Em países afetados por
conflitos armados, a disseminação de soluções científicas é severamente prejudicada, sobretudo em
razão da precariedade da infraestrutura, seja pela destruição de hospitais, pela ausência de unidades
de saúde ou pela dificuldade de acesso a elas. Além disso, somam-se entraves logísticos
relacionados ao transporte e ao armazenamento de vacinas, o que compromete ainda mais a eficácia
das campanhas de imunização.

Contemporaneamente, podemos mencionar a República Democrática do Congo, que
destaca-se como um caso emblemático, uma vez que seu conflito armado possui raízes profundas e
complexas, impulsionadas por fatores como a instabilidade no período pós-genocídio, que
contribuíram para a ocorrência de massacres e o fortalecimento de milícias extremistas.
Mais recentemente, a milícia Movimento 23 de Março (M23) tem intensificado suas ofensivas
na região leste do país, atuando com organização militar e uso de artilharia pesada. Como
consequência direta, observa-se o agravamento de uma crise humanitária já crítica, evidenciada pelo
deslocamento de mais de 200 mil pessoas apenas em dezembro de 2025, além do registro de 74
mortes de civis em um curto intervalo de tempo. Nesse mesmo ano, uma base da Médicos Sem
Fronteiras foi atingida na cidade de Masisi, o que reforça, de maneira contundente, como conflitos
dessa natureza não apenas dificultam, mas também comprometem o acesso à saúde para
populações já marginalizadas, contribuindo, assim, para o aumento de mortes que poderiam ser
evitadas.

Como consequência desse cenário, pode-se destacar o surto de Ebola na província de
Kasai, que evidencia a fragilidade dos sistemas de saúde em regiões afetadas por instabilidade.
Paralelamente, o país concentra cerca de 12% das mortes globais por Malária, um dado que reforça
a dimensão do problema. Nesse contexto, os conflitos armados não apenas dificultam a
implementação de medidas preventivas, como campanhas de vacinação e distribuição de
medicamentos, mas também desestruturam serviços básicos e limitam o alcance de organizações
humanitárias. Assim, a persistência da violência agrava a disseminação de doenças evitáveis e
escancara as profundas desigualdades no acesso à saúde, sobretudo entre populações já social e
geograficamente marginalizadas.

Diante desse cenário, diversas iniciativas internacionais têm sido mobilizadas com o objetivo
de mitigar os impactos da crise sanitária na República Democrática do Congo, destacando-se, nesse
contexto, a atuação da Organização Mundial da Saúde (OMS), responsável por coordenar o combate
a surtos como Ebola e antraz, além de organizar o envio de vacinas — como as 45 mil doses
aprovadas para fevereiro de 2026 — e oferecer suporte contínuo aos profissionais de saúde em
campo. Paralelamente, a Médicos Sem Fronteiras (MSF) exerce um papel fundamental ao prestar
atendimento médico emergencial, especialmente diante de epidemias, quadros de desnutrição e
casos de violência sexual, enquanto o UNICEF direciona seus esforços à saúde infantil e à
ampliação das campanhas de vacinação, tendo, inclusive, lançado um apelo de financiamento de
US$ 330,6 milhões para 2026. Ainda assim, apesar da relevância e da abrangência dessas ações,
persistem limitações significativas, uma vez que a insegurança gerada pelos conflitos, aliada à
destruição da infraestrutura e às dificuldades logísticas, restringe o acesso às populações mais
vulneráveis, comprometendo a eficácia das intervenções e evidenciando a contínua dependência de
apoio internacional.


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